~desabafos de mais uma mente e alma inquietas~

segunda-feira, 14 de maio de 2012

~apathy~

    Tudo o que consegui fazer após uma noite em branco foi afastar todas aquelas roupas verdes e supostamente desinfectadas, vestir a roupa de correr e correr para o mar. Não sei porque o fazia e sabia que devia ter o máximo descanso, mas só queria libertar todas aquelas energias. Corri então até ao telhado do farol e lá me deitei ao som do piano nos meus fones, e, ao recuperar o folgo, segui em direcção ao castelinho.
    Não consegui não encarar o mar para lá das falésias e rochas enquanto corria. A limpidez da água para lá da praia atraía-me mais do que o habitual, e com tal, cedi à maior tentação…
    Desci as falésias sem olhar para baixo, saltei as rochas e admirei o ritmo que o mar tomava, interiorizei-o. Tirei a roupa sem pensar se alguém por ali passaria ou não, deixei-me apenas em roupa interior e, com agulhas nos pés e mãos, desci até onde as ondas varriam as rochas. Agora varriam também os meus pés e pedaços de mim.
    As falésias a cima da minha cabeça ameaçavam-me fortemente, tal como as ondas contra as rochas, mas não houve um segundo no qual ponderasse voltar atrás ou sequer pensar no que poderia acontecer; estava mergulhada em apatia e com a alma à superfície. Comecei por mergulhar as pernas e depois deixei-me cair repentinamente para lá das rochas.
    O meu coração deu um estalo e eu ria-me com a respiração ofegante e pânico. Não sabia como que raio tinha ali chegado, como tinha ido ali parar. Sentia as ondas a empurrarem o meu corpo mole contra as rochas e depois, egoistamente, afastá-lo e leva-lo. Os meus pés estavam suspensos e no fundo consegui avistar alguns peixes na sua vida habitual.
    Foi incrível a sensação de estar com a vida suspensa, foi incrível a adrenalina e por uma vez estar sem o coração e vida nas mãos. Foi magnifico entrega-la por completo ao mar… Aliviou-me não ser eu a estar em controlo das coisas, mas com uma total intimidade com aquilo que amava.
    O coração não parava, e na minha cabeça surgiam as palavras  a indicar o que fazer. Utilizei a ajuda dele para subir de novo para os rochedos e lá fiquei agachada, e apoiada nas rochas, com os cabelos e roupa interior molhados e de olhar fixo no mar que rebentava sobre mim.

Sim, parecia uma louca, uma selvagem, algo que não existe por aí. Mas para mim aquilo embora loucura, era pura beleza e paixão que nem todos conseguem alcançar.


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