- Gostei da tua ideia do mapa de estradas. Olhei para ele, inexpressivamente. Mapa de estradas?
- As áreas interditas - disse ele a título de explicação.
- Queres que te marque com o batom?
- Anda - disse ele, estremecendo-me as mãos. - Senta-te em cima de mim.
Eu estendi-lhe a mão com o batom. Ele sentou-se subitamente e ficámos face a face. Guiou-me a mão até à curva do ombro
(...)
Estava a conter ao máximo a sua própria aversão. A linha do seu maxilar estava tensa, tal como a zona em torno dos olhos.
- Agora sobe pelo outro lado - e largou-me a mão.
A confiança que estava a depositar em mim era inebriante, embora amenizada pelo facto de eu poder contabilizar a sua dor. Sete pequenas cicatrizes redondas e esbranquiçadas, salpicavam-lhe o peito. Ver o seu belo corpo profano de forma tão hedionda era um profundo duplício. Quem faria aquilo a uma criança?
- Pronto, terminei - sussurrei, contendo a minha emoção.
- Não, não terminaste. Agora as minhas costas - murmurou. Mudou de posição e sentou-se de pernas cruzadas, de costas viradas para mim.
- Segue a linha do meu peito e contorna as minhas costas, até ao outro lado. - Estava com uma voz grave e rouca.
Eu obedeci e quando ia traçar uma linha vermelha no meio das suas costas vi mais cicatrizes a desfigurar-lhe o corpo. Nove ao todo.
Merda. Tive de contrariar a necessidade avassaladora que senti de beijar cada uma delas e conter as lágrimas que me inundaram os olhos. Que animal faria uma coisa daquelas? Quando completei o circuito em torno das suas costas, ele estava de cabeça baixa e o seu corpo estava tenso.
- Terminado - murmurei. Era como se usasse um estranho colete cor de pele, debruado a vermelho vivo.
Ele descaiu os ombros e descontraiu-se, voltando a virar-se lentamente para mim.
(...)
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